Elegia


Liberdade,
sem ti nada mais sei.

Compreendi o mundo
em ti, sutil
compêndio.

Amei muito antes
de me amares,
entre surtos e sulcos.

Amei
e só a morte
de perder-te
me faz viver
multiplicando
auroras, meses.

E sou tão doido
que o riso inútil
percorri
de me perder, perdendo-te,
perdido em mim.

(Carlos Nejar)

Meninas



Cabelo solto,
salto alto,
maquiagem,
lá vai o menino dono de seus versos.
Ela senta,
sozinha,
observa,
anota,
ninguém nota que sonha acordada.
Menina de olhos atentos
lá vai o menino, e nem nota o seu afeto.
Ele passa,
correndo,
menino,
travesso,
menina, ajeita essa saia
levanta o olhar,
e sorri como uma estrela.
Os dias passam,
ligeiros,
ensolarados,
intensos,
lá vem a menina de compasso apertado.
Ninguém nota que possui um castelo...
Menina, que queres com esse teu gingado?
"Quero aquele menino, preso dentro de meus versos."

(Priscila Mondschein)

1984


1984: Ano 1, Era de Orwell

enquanto os mortais
aceleram urânio
a borboleta
por um dia imortal
elabora seu vôo ciclâmen

v

uma dança
de espadas

esta
escrita
delirante

lâminas cursivas

a lua
entre dois
dragões

com uma haste
de bambu
passar
por entre lianas
sem desenredá-las.

(Haroldo de Campos)

Feliz Aniversário!


Novembro: Escorpiões vagamundos
Ao meu amigo e poeta JouElam

Um brinde à nossa estrada
Terras... a separar, esse mar... Tanto mar!
Um brinde às nossas cores misturadas
ao vinho e a cachaça
a todas as mulheres amadas
todas as velas ao vento, todos os cânticos.
Todos os Chicos Buarques, os Zecas Afonsos
todos os Pessoas, Nerudas... Os poetas do meio da rua
Todos que fizeram e fazem da arte, o sonho da própria arte.
Os textos escritos em bares, os versos tingidos de sonhos
aos violões, guitarras, forjados de algum amieiro
esculpidos em sonora madeira
qual o corpo da mulher desejada,
no corpo das belas loureiras.
Nas farras varando as madrugadas
Em algum cabaré decadente no Rio, Lisboa
no Porto, nos becos de Belo Horizonte.
Nas esquinas, em serestas com lua cheia,
no palco em qualquer canto...
Um brinde ao dia 18, ao dia 20
novembro de anos deixados para trás.
Aportar um dia em Lisboa
na mala algumas quimeras, muitos desejos
Bairro Alto, Chiado, Baixa... O abraço dos amigos, Madredeus.
Os copos embriagados de vinho, vozes em cantoria, resto de noite.
N'alguma taverna um fado dolente solto no ar...
Um brinde!
Ao novembro dos escorpiões vagamundos.

(Yon Rique)

18 de novembro, aniversário do querido amigo Yon... teve festa no céu!
Fica aqui, como homenagem, o poema que ele fez para um amigo!!!



Pequena reflexão sobre olhos castanho-esverdeados


Foto: José Manuel Cunha


Eles aparecem numa tarde ensolarada qualquer, quando você menos espera. Brilham, fixam-se, pequenos, incertos. E quando você cai nesse abismo de profundidade furta-cor, misturam-se os tons, confundem-se as cores, até que não haja mais distinção entre as tintas que os colorem e minhas pequenas mãos que tentam alcançá-los.

(Priscila Mondschein)



Anexo IV

"Como traduzir o silêncio do encontro real entre nós dois, dificílimo contar: olhei para você por uns instantes, tais momentos são o meu segredo. Houve o que se chama de comunhão perfeita. Eu chamo isso de estado agudo de felicidade.
(Clarice Lispector - A paixão segundo G.H.)


Sobre poetas



"Seria um poeta? Estaria escrevendo versos? 'Diga-me', queria pedir-lhe, 'todas as coisas do mundo inteiro', porque suas idéias acerca dos poetas e da poesia eram as mais absurdas e extravagantes. Como, porém, falar com um homem que não nos vê, que está vendo ogros, sátiros ou talvez o fundo do mar?"


(Orlando, Virgínia Woolf)




Anexo III


"Quando surge uma idéia, vou para a rua. Tenho prazer em conceber o poema no meio das pessoas que passam e nem suspeitam que ali, naquela hora ele está nascendo."

(Ferreira Gullar)


Pré-história


Foto: J. Pedro Martins

Mamãe vestida de rendas
tocava piano no caos.
Uma noite abriu as asas
cansada de tanto som,
equilibrou-se no azul,
de tonta não mais olhou
para mim, para ninguém!
Caiu no álbum de retratos.

(Murilo Mendes)

Do azul ao álbum de retratos, uma bela forma de lidar com um assunto tão difícil como a morte, fazendo poesia...


Drumundana

E agora maria?

O amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu homem foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia

E agora maria?
vai viver com as outras
vai viver
com a hipocondria.

(Alice Ruiz)


Anexo
II


"Passei o dia com teu céu, lá fora choveu, em mim fez sol."
(Alice Ruiz)




Igual-Desigual


Eu desconfiava:
todas as histórias em quadrinhos são iguais.
Todos os filmes norte-americanos são iguais.
Todos os filmes de todos os países são iguais.
Todos os best-sellers são iguais.

Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são iguais.
Todos os partidos políticos são iguais.
Todas as mulheres que andam na moda são iguais.
Todas as experiências de sexo são iguais.
Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais e todos, todos
os poemas em verso livre são enfadonhamente iguais.

Todas as guerras do mundo são iguais.
Todos os amores, iguais iguais iguais.
Iguais todos os rompimentos.
A morte é igualíssima.
Todas as criações da natureza são iguais.
Todas as ações, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais.
Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou coisa.
Não é igual a nada.
Todo ser humano é um estranho ímpar.

(Carlos Drummond de Andrade)

Somos deliciosamente diferentes, e isso é o que cria cada beleza ímpar, singular!
Concordo com Drummond!


Cena íntima

Outubro termina a bordo de um ventinho de cambraias, perfeito para cílios e lábios. Ainda há borboletas soprando o véu da primavera. Do outro lado da rua, através dos brincos-de-princesa na treliça que contorna a varanda, posso sentir o coração de um sabiá pulsar ao compasso solitário do assobio. A luz da tarde anucia subitamente escuros, abafa-se, e logo cai a tempestade cai, depenteando o cenário com raios esplêndidos. Cai estrondosa e se vai, deixando a tarde fresca e perfumada. Nos intervalos entre gotas tardias, pesco um sentimento ímpar de plenitude. Mosaicos de folhas e galhos repousam no asfalto cravejado de granizos.

(Ledusha B. A. Spinardi)



Outubro ainda não terminou, mas apreciemos o lirismo de Ledusha!!!

The unending gift


Foto - Alicina

THE UNENDING GIFT

Um pintor nos prometeu um quadro.
Agora, em New Englan
d, sei que morreu. Senti,
como outras vezes, a tristeza de
compreender que somos como um sonho.
Pensei no homem e no quadro perdidos.
(Só os deuses podem prometer, porque são imortais.)
Pensei num lugar prefixado
que a tela não ocupará.
Pensei depois: se estivesse aí, seria com o tempo
uma coisa a mais, uma das vaidades ou
hábitos da casa; agora é ilimitada,
incessante, capaz de
qualquer forma e
qualquer cor e a ninguém vinculada.
Existe de algum modo. V
iverá e crescerá como
uma música e estará comigo até o fim.
Obrigado, Jorge Larco.
(Também os homens podem prometer, porque na promessa há algo imortal.)

(Jorge Luis Borges)

ANEXO I


"A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos."
(Manoel de Barros)

Cantiga para uma saudade

Vou te falar sobre a saudade
é isso tudo que dissestes agora há pouco
e mais o tantão que sobrou de ti em mim

vou te falar sobre saudade
é quando não me vejo mais no espelho
quando choro tão alto que esqueço de soluçar
e chego atrasada para o encontro comigo mesma

vou te falar sobre a saudade
é quando a tinta com que ía escrever não vá
acaba na hora H em que te vejo partir.

(Karla Julia)


Manoel de Barros


Retrato quase apagado em que se pode ver perfeitamente nada

III

Chove torto no vão das árvores.
Chove nos pássaros e nas pedras.
O rio ficou de pé e me olha pelos vidros.
Alcanço com as mãos o cheiro dos telhados.
Crianças fugindo das águas
se esconderam na casa.

Baratas passeiam nas formas de bolo...

A casa tem um dono em letras.

Agora ele está pensando -

no silêncio líquido
com que as águas escurecem as pedras...

Um tordo avisou que é março.

(Manoel de Barros - Trecho de "O Guardador de águas".)



Sobre versos e experiências...

Foto: Jorge Alfar

"Porque os versos não são, como as gentes pensam, sentimentos (esses têm-se cedo o bastante), – são experiências. Por amor de um verso têm que se ver muitas cidades, homens e coisas, têm que se conhecer os animais, tem que se sentir como as aves voam e que se saber o gesto com que as flores se abrem pela manhã. É preciso poder tornar a pensar em caminhos em regiões desconhecidas, em encontros inesperados e despedidas que se viram vir de longe (...)"
(Rainer Maria Rilke)



"Denn Verse sind nicht, wie die Leute meinen, Gefühle (die hat man früh genug), - es sind Erfahrungen. Um eines Verses willen muß man viele Städte sehen, Menschen und Dinge, man muß die Tiere kennen, man muß fühlen, wie die Vögel fliegen, und die Gebärde wissen, mit welcher die kleinen Blumen sich auftun am Morgen. Man muß zurückdenken können an Wege in unbekannten Gegenden, an unerwartete Begegnungen und an Abschiede, die man lange kommen sah(...)"
(Rilke - Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge)


Eu mesma

Foto: Ana Dias

Ela veste o brilho exato

corre entre as flores

planta lírios

ela tem segredos

faz angústia

traz sentido

ela tem as mãos vazias

uma saia

dependurada

entre as roupas

também esconde o seu segredo

ela foi

ninguém a viu

entoou

ninguém ouviu

ela, por várias razões,

saltou num mundo tão diferente

do nosso pobre, mundo cão.

(Susana Martins)

Última postagem antes das férias!
Vejo vocês em setembro ;)



Leminski


Foto: Paulo Madeira

Esse súbito não ter
esse estúpido querer
que me leva a duvidar
quando eu devia crer
esse sentir-se cair
quando não existe lugar
aonde se possa ir
esse pegar ou largar
essa poesia vulgar
que não me deixa mentir.

(Paulo Leminski)


Esses versos combinam perfeitamente com meu momento, essa poesia vulgar, que insiste em dizer sempre a verdade...

Quintana, novamente!


Estou sentado sobre a minha mala

no velho bergantim desmantelado...

Quanto tempo, meu Deus, malbaratado

em tanta inútil, misteriosa escala!


Joguei a minha bússola quebrada

às águas fundas... E afinal sem norte,

como o velho Sindbad de alma cansada

eu nada mais desejo, nem a morte...


Delícia de ficar deitado ao fundo

do barco, a vos olhar, velas paradas!

Se em toda parte é sempre o Fim do Mundo.


Pra que partir? Sempre se chega, enfim...

Pra que seguir empós das alvoradas

se, por si mesmas, elas vêm a mim?

(Mário Quintana)

Quintana sempre merece espaço com suas lindas poesias!



Barulho

Todo poema é feito de ar

apenas:

a mão do poeta

não rasga a madeira

não fere

o metal

a pedra

não tinge de azul

os dedos

quando escreve manhã

ou brisa

ou blusa

de mulher.

O poema

é sem matéria palpável

tudo

o que há nele

é barulho

quando rumoreja

ao sopro da leitura.


(Ferreira Gullar)

Versos do primeiro dia do inverno


Alguns versos voltam

envoltos em timidez.

Aos poucos, tão soltos

findam minha mudez.

Embora esses dias frios

que marcam um inverno arisco

transformem a espera,

imensa quimera,

em tantas noites sem você.

E quando teu nome surge,

dentre tantos que confundem

o primeiro dia frio

escorre pelo meio-fio

enquanto observo seu jeito esquivo

assim como o inverno

frio e arredio.

(Priscila Mondschein)


... e os versos voltam!


Iniciação


É mais
que uma escada.
Não se ouve
só-passos.
[Compassos]
Se ouve notas
ex-CALADAS
semi-
afinadas
(quase afiadas).
Uma sinfonia-
Harmonia-
nos dedos
dos pés.
Assim
Sobe
-pisando, dançando-
o jovem,
para a
[primeira]
aula
de
Piano.

(TanyLe)

A TanyLe é uma jovem de 18 anos com muito futuro como poetisa!
Sua poesia tem a cara da modernidade e uma beleza que somente poucos possuem!

O Blog da Tany é o Au De'feccar





Belo Belo

Imagem: Tim Burton's Garden - Ana Salão

Belo belo belo
tenho tudo quanto quero.

Tenho o fogo de constelações extintas há milênios.
E o risco brevíssimo - que foi? passou - de tantas estrelas cadentes.

A aurora apaga-se,
e eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.

O dia vem, e dia adentro
continuo a possuir o segredo grande da noite.

Belo belo belo,
tenho tudo quanto quero.

Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.

As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
os anjos não compreendem os homens.

Não quero amar,
não quero ser amado.
Não quero combater,
não quero ser soldado.

- Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.
(Manuel Bandeira)


O que mais posso dizer: BELO, BELO, BELO!!!!
PS: A foto da Ana é uma das idéias mais originais que já encontrei na fotografia, talvez por ser fã de Tim Burton também! rs

Quatro baladas amarelas

IV

Sobre o céu
das margaridas ando.

Nesta tarde imagino
que sou santo.
Puseram-me a lua
nas mãos.
Eu a pus outra vez
no espaço
e o Senhor me premiou
com a rosa e o halo.

Sobre o céu
das margaridas ando.

E agora vou
por este campo
a livrar as meninas
dos galãs maus
e dar moedas de ouro
a todos os rapazes.

Sobre o céu
das margaridas ando.

(Frederico Garcia Lorca - Trecho IV do poema!)

Todo o encanto das flores...



Canção do amor imprevisto


Foto: José Ferreira


Eu sou um homem fechado.

O mundo me tornou egoísta e mau.

E minha poesia é um vício triste,

desesperado e solitário

que eu faço tudo por abafar.

Mas tu apareceste com tua boca fresca de madrugada,

com teu passo leve,

com esses teus cabelos...

E o homem taciturno ficou imóvel,

sem compreender nada,

numa alegria atônita...

A súbita alegria de um espantalho inútil

aonde viessem pousar os passarinhos!


(Mário Quintana)


Seus lindos poemas sempre merecem um espaço!!

Segunda-feira


Vinte e um. Segunda-feira

Vinte e um. Segunda-feira. É noite.
No escuro uns contornos de cidade.
Algum vagabundo escreveu
que na terra pode haver amor.

E por tédio ou preguiça,
todos acreditaram e assim vivem:
esperam encontros, temem adeus
e cantam canções de amor.

Mas a outros revela-se o enigma,
e o silêncio repousará sobre eles...
Descobri isto por acaso
e desde então sinto-me mal.

(Anna Akhmátova - poetisa russa. Tradução de Manuel de Seabra)

Tédio ou preguiça?
Tudo depende se está apaixonado ou não...



Verbo SER


Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho que mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser Esquecer.

(Carlos Drummond de Andrade)

O verbo mais bonito, completo e enigmático...
na minha opinião!!!


Canção da garoa



Em cima do telhado

Pirulin lulin lulin,

um anjo, todo molhado,

soluça no seu flautim

o relógio vai bater:

as molas rangem sem fim.

O retrato na parede

fica olhando para mim.

E chove sem saber porquê

e tudo foi sempre assim!

Parece que vou sofrer:

Pirulin lulin lulin...


(Mário Quintana)


E comigo também, parece que foi sempre assim... será que vou sofrer?


Versos Perdidos


Gosto de sentir o tempo,
seja ele remodelando os traços do meu rosto,
me ensinando novas coisas,
ou iluminando as minhas decepções.
Gosto da dor que antecede o raiar do dia,
gosto do sofrimento que toma conta de mim ao ouvir certas canções,
fazendo com que as lágrimas mais que uma vez,
cheguem aos meus olhos ou
trazendo a inspiração que preciso para escrever um novo texto.
Gosto de remoer os sentimentos que se apagam com o passar das horas,
sejam eles bons
ou
ruins,
me trazendo lembranças em múltiplas formas.
Não me importo...
Acredito que os anos nos fazem memórias,
me fazendo crer que o tempo é apenas uma divisão
entre
a
velocidade
e o
espaço.

(Fernanda Alves)


"Tempo: coisa que acaba de deixar o querido leitor um pouco mais velho ao chegar ao fim desta linha." (Mário Quintana)


Despedida do blog "Versos Perdidos", da amiga Fernanda!


Liberdade


Liberdade

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

(Sophia de Mello Andresen)


Em homenagem ao próprio blog!!! :D


Diálogo


Foto: Formas vencem cores - Isabela Daguer

Diálogo

- E você, por que desvia o olhar?

(Porque eu tenho medo de altura. Tenho medo de cair para dentro de você. Há nos seus olhos castanhos certos desenhos que me lembram montanhas, cordilheiras vistas do alto, em miniatura. Então, eu desvio os meus olhos para amarrá-los em qualquer pedra no chão e me salvar do amor. Mas, hoje, não encontraram pedra. Encontraram flor. E eu me agarrei às pétalas o mais que pude, sem querer perceber que estava plantada num desses abismos dentro dos seus olhos.)

- Ah, porque eu sou tímida!

(Rita Apoena)



Estou encantada com a "poesia das pequenas coisas"



+ curtinhas sobre a noite!


Foto: DDiArte


hoje à noite
até as estrelas
cheiram a flor de laranjeira

****

a noite
me pinga uma estrela no olho
e passa

(Paulo Leminski)



Vento e violino


Dentro da sala um violino cantou,
cantou sobre amor, selvagem, mas agradável.
Lá fora, através dos ramos, o vento cantou:
O que deseja, minha criança adorável?

Dentro da sala um violino cantou:
quero felicidade, quero felicidade!
Lá fora, através dos ramos, o vento cantou:
desejo de todas as idades.

Dentro da sala um violino cantou:
se isto é antigo, para mim é novo.
Lá fora, através dos ramos, o vento cantou:
vários já morreram de remorso.

A última nota do violino soou;
a janela tornou-se pálida e obscura,
mas ainda, por muito tempo, cantou e cantou
o vento, de dentro da floresta escura:

O que deseja, minha criança pura?


(Christian Morgenstern - Tradução de Priscila Mondschein)

Was willst du, Menschenkind?